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Super Frutas [ 13-02-2009 ]
 
Mirtilo
Elas são chamadas de (pequenas) frutas vermelhas porque muitas delas têm a casca e o suco dessa cor, mas seria mais apropriado nomeá-las como frutas especiais ou nutracêuticas, por seu poder medicinal. São quase especiarias, que exigem cuidados extremos na colheita e no pós-colheita, pois são bastante vulneráveis. Mas todas são ricas em flavonóides e outras substâncias salutares. Fora a uva preta, que mereceria ser a prima-dona do gênero, a mais antiga é o morango, crescentemente cultivado em regiões frias do Brasil após a 2a Guerra Mundial. Embora seja nativa do Brasil, a amora preta melhorada nos Estados Unidos foi difundida pela Embrapa a partir dos anos 1970; uma variedade de nome tupi desenvolvida em Pelotas nos anos 80 é hoje a amoreira mais cultivada do mundo.

Com pouco brilho no Brasil, também faz parte do grupo a framboesa. Mas o mais recente sucesso da família é o blueberry (acima, na foto), frutinho azulado de origem americana, conhecido na Itália por mirtilo e nos países hispânicos por arándano. Na realidade, o mirtilo tem a cor da jabuticaba e da uva preta. O que lhe dá o tom azulado é a pruína, uma substância cerosa - semelhante à da uva preta -- que protege sua casca. "Posso estar enganado, mas o mirtilo é a bola da vez", diz o agrônomo Eduardo Pagot, da Emater-RS, que dá orientação técnica a uma centena de agricultores familiares em Vacaria, região gaúcha dominada por grandes propriedades que passaram por diversos ciclos econômicos -- pecuária e pinho, tradicionalmente; maçã, trigo e soja, nas últimas décadas.

Nascido na vizinha Caxias do Sul, capital da uva, Pagot está empolgado com o sucesso desse novos ramos da fruticultura difundidos pelo Centro Nacional de Fruteiras de Clima Temperado da Embrapa de Pelotas, com apoio da Emater e a ajuda de algumas prefeituras. O caso de Vacaria parece ser exemplar: os continuados investimentos municipais na extensão rural nos últimos anos abriram espaço para a recente sagração política do técnico agrícola Eloi Poltronieri, da Emater. Ele se elegeu prefeito em outubro de 2008 depois de exercer o cargo de secretário da agricultura do município. Entre os políticos que derrotou estava o veterano ex-prefeito Marcos Palombini, 74 anos, considerado o introdutor da cultura da maçã nas campinas vacarianas.

Mesmo de férias, em janeiro, Pagot levou a equipe da revista Globo Rural até cinco fruticultores de Vacaria. Os dois mais estruturados vivem da maçã, mas estão apostando no mirtilo. O objetivo é vender a fruta para indústrias de suco como a Italbras, instalada no município desde 1990. Os outros três produtores são jovens, nascidos em pequenas glebas rurais, que encontraram nesses pomares de pequenas dimensões uma forma de fugir do subemprego rural ou urbano. Apesar da dispersão geográfica -- duas das cinco comunidades rurais assistidas pela Emater são formadas por antigos assentamentos de reforma agrária isolados a mais de 60 quilômetros do centro de Vacaria --, eles estão unidos numa associação de produtores com 127 sócios e articulam a formação de uma cooperativa com amparo do Pronaf.

Dos "clientes" de Pagot, o mais poderoso é Olavo Caieron, aposentado do BB que tem 60 hectares de macieiras e prepara-se para implantar um pomar de 6 hectares de mirtilo, coisa rara para um produtor individual. Muito bem instalado nos arredores da cidade, Caieron sofreu com a burocracia federal para importar legalmente do Uruguai mudas clonais da mirtileira. Depois de perder material numa "quarentena de quatro dias", durante os quais as "mudinhas" -- fragmentos de tecidos vegetais, na realidade -- ficaram num local com deficiência de iluminação, o fruticultor descobriu que boa parte da expansão do mirtilo nos últimos anos no Brasil foi sustentada por material genético sem cadastro no Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura. Atualmente, haveria sete viveiros de mirtileira no Rio Grande do Sul e um em São Paulo, mas os técnicos gaúchos reconhecem que um dos mais dinâmicos do Cone Sul fica em Chuy, no Uruguai, país que tem mais de 1 mil hectares de bons pomares de mirtilo - área bem maior do que a do Brasil, onde não haveria mais do que 250 ha desse arbusto de origem norte-americana.

Mesmo com o transtorno aduaneiro, Caieron formou 30 mil mudas, em prazo três vezes mais rápido do que o processo tradicional de propagação por estaquia. Além de ter material de boa procedência para seu futuro pomar - a ser implantado entre março e abril --, Caieron vende mudas e dispõe-se a fornecer material genético gratuitamente para projetos de alcance social. É convicção generalizada em Vacaria e outros polos de fruticultura que a produção de pequenas frutas como o mirtilo é um negócio promissor para a agricultura familiar. Se pela amora preta o produtor recebeu 1,50 reais por quilo na safra encerrada em janeiro, pelo mirtilo colhido na mesma época a cotação foi muitas vezes maior. Quanto? Ninguém dá os números. Pequenos produtores dizem que entregam na confiança à empresa compradora que só informa o preço depois da colheita. Apenas um médio produtor abriu o jogo.

Ivanor Bortolotto, 59 anos, que passou a vida toda cuidando de grandes pomares alheios de maçã e hoje explora com os filhos quatro hectares de terra própria, poderia posar de vítima ou de azarado, pois em três safras de mirtilo sofreu duas perdas sucessivas. Depois de uma chuva de granizo em 2007, foram sete geadas brutais em agosto de 2008. Mas ele não se queixa. Mesmo tendo colhido uma fração do potencial do seu pomar, ele está satisfeito com a nova estrelinha da fruticultura sulina: "Recebi 18 reais por quilo. Quanto ao refugo de fim de safra, estão me pagando de 10 a 12 reais o quilo", disse, na primeira quinzena de janeiro. Na feira livre dos sábados, que frequenta há anos em Vacaria, ele vendia 3 reais a cambuquinha com 125 gramas de mirtilo.
Fonte: Globo Rural - Texto Geraldo Hasse - Fotos Marcelo Curia
 
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